Terapias alternativas para dor

Muitos anos atrás, eu sofria de dores de cabeça debilitantes, relacionadas a um número de atividades que pareciam não ter nada a ver entre si, como cozinhar para os outros e fazer cortinas para a casa. Achei até que pudesse ser alérgica ao gás natural ou a certos tecidos quando, um belo dia, percebi que tensionava os músculos da face quando me concentrava muito em uma tarefa.

A cura foi surpreendentemente simples; tendo consciência de como meu corpo reagia, mudei meu comportamento através da autoindução, ou seja, relaxando conscientemente os músculos quando começava a me concentrar em um projeto que pudesse levar à dor de cabeça causada por excesso de tensão. Quase cinco décadas depois, minhas costas passaram a doer até quando preparava a refeição mais simples e rápida. E mais uma vez percebi que estava transferindo o estresse para os músculos da região, tendo que aprender a relaxar e aceitar que precisava de mais tempo para completar a tarefa para mitigar a tensão. Fico feliz em poder dizer que, outro dia, preparei um jantar para oito pessoas sem uma única dorzinha.

Não estou sugerindo que toda dor e mal-estar possam ser curados com a autoconscientização e a mudança de comportamento, mas pesquisas recentes demonstram que a mente, em conjunto com outras soluções não farmacológicas, pode ser um remédio poderoso para aliviar problemas crônicos ou recorrentes, especialmente a dor na região lombar.

É como o neurocirurgião e especialista em dor James Campbell diz: “O melhor tratamento para a dor está bem embaixo do nariz.” E sugere a não “catastrofização”, ou seja, é melhor não assumir que a dor representa algo desastroso.

Segundo ele, a dor aguda é o sinal natural de que algo está errado e precisa de atenção; já a crônica não é mais um alerta útil, mas pode levar a um sofrimento perpétuo se a pessoa continuar a ter medo dela.

“Se a dor não é indicação de que há algo muito errado, você pode aprender a conviver. É muito comum a pessoa acabar presa em um círculo vicioso de inatividade que resulta na perda de força muscular e problemas ainda mais dolorosos”, explica Campbell, que também é professor emérito da Johns Hopkins Medical Institutions.

Tratar a dor crônica com remédios fortes pode só piorar o problema, uma vez que as doses tendem a se tornar cada vez maiores. Sabendo disso, mais e mais especialistas estão agora explorando tratamentos não invasivos, sem uso de medicamentos – e alguns já provaram ser altamente eficazes.

Recentemente o American College of Physicians divulgou novas diretrizes para essa versão do tratamento de dor nas costas crônica ou recorrente, problema que aflige um em cada quatro adultos e custa US$100 bilhões anuais ao país.

Observando que a maioria desses pacientes melhora com o tempo, “independente do tratamento”, a faculdade recomenda opções como aquecimento superficial, massagem, acupuntura ou, em alguns casos, manipulação vertebral (quiropraxia ou osteopatia). Para quem sofre de dores crônicas nas costas, as sugestões incluem exercícios, reabilitação, acupuntura, tai chi, ioga, relaxamento progressivo, terapia comportamental cognitiva e o programa de redução de estresse baseado na plena atenção.

O gerenciamento da dor sem uso de remédios hoje é uma das principais prioridades dos pesquisadores do Centro Nacional para a Saúde Integrada e Complementar, divisão do Instituto Nacional de Saúde. Um sumário abrangente da eficácia dos tratamentos alternativos para problemas comuns – dores nas costas, fibromialgia, enxaqueca, artrite no joelho e dor no pescoço – foi publicado, no ano passado, como parte dos procedimentos da Clínica Mayo, por Richard L. Nahin e equipe.

Baseados nas evidências de triagens clínicas bem estruturadas, seus integrantes confirmaram que essas iniciativas complementares “podem ajudar o paciente a administrar o problema de saúde que lhe incomoda: acupuntura e ioga para as dores nas costas; acupuntura e tai chi para osteoartrite do joelho; terapia de massagem para dores no pescoço com doses adequadas e para benefícios em curto prazo; técnicas de relaxamento para dores fortes de cabeça e enxaqueca”.

Há evidências, ainda que menos contundentes, que também sugerem que a terapia de massagem e manipulação osteopática cervical podem gerar benefícios para quem sofre de dores nas costas, e as técnicas de relaxamento e o tai chi podem aliviar os sintomas da fibromialgia.

Entre os estudos mais recentes, conduzidos por Daniel C. Cherkin e equipe, no Group Health Research Institute e na Universidade de Washington, em Seattle, tanto a redução de estresse com base na plena atenção como a terapia comportamental cognitiva provaram ser mais eficazes que o “tratamento comum” no alívio da dor lombar crônica e na recuperação das funções do paciente.

A TCC na verdade ensina a pessoa a reestruturar a maneira como encara os problemas. “Já havia evidências de sua eficiência para vários tipos de dor; nosso estudo mostrou que a terapia e a redução de estresse são semelhantes na redução da disfunção e no alívio da dor”, afirma Cherkin.

Uma análise de custos mostrou que a técnica da plena atenção – basicamente uma forma de meditação que ajuda o paciente a “entrar em contato com o próprio corpo e a vida”, como descreve Cherkin – provou ter um índice maior de custo-benefício do que a TCC e o tratamento tradicional na redução dos custos de assistência médica e na perda da produtividade.

Essencialmente uma forma desmistificada de meditação budista, ela é ensinada e praticada em sessões de duas horas, durante dois meses, combinada com ioga suave. “Assim, o paciente aprende a relaxar e a não ‘reagir’ à dor, ou seja, não permite que ela se torne o foco de sua vida”, prossegue o estudioso.

Em uma análise de acompanhamento feita dois anos depois, os pacientes tratados com a terapia da plena atenção ou TCC continuaram tendo mais chances de melhora do que os que submetiam à terapia tradicional, relatou a equipe em fevereiro.

Entretanto, em relação ao acesso dos tratamentos para a dor sem uso de medicamentos, há dois problemas: primeiro que a maioria das seguradoras não cobre praticamente nenhum dos métodos, nem os profissionais que os administram. Forçado a pagar do próprio bolso, o paciente obviamente opta pelo remédio, coberto pelo plano, apesar das inúmeras armadilhas que isso pode representar.

Há também a questão da disponibilidade. Quem não mora nas áreas urbanas pode ter sérios problemas para ter acesso à TCC, à terapia de plena atenção, ou mesmo um massagista, instrutor de tai chi ou acupunturista.

Entretanto, há outra opção, quase sempre subestimada, mas mais comum e geralmente coberta pelo plano de saúde: a fisioterapia. Bem feita, ela pode acelerar a recuperação e ensinar como evitar as condições que podem precipitar ou exacerbar a dor, incluindo a inatividade.

Por Jane E. Brody

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